Narração de um lance de beisebol: o "pitcha" arremessa a "bora" com "naco". O rebatedor não cai no truque e a acerta com o "bata". Com a pancada, a "bora" quica no "goro" antes de parar na "globo" do "shoto", que passa ao "secando". Com o pé na base, o jogador elimina o "lana" e lança para o "fasto". "Guetso!", grita o "quiátia". Não dá para culpar o "japonglês" pelo Brasil não ter se classificado para Atenas. Mas é complicado o dialeto, vindo do inglês dos EUA (berço da modalidade) e que, via Japão (uma das potências do esporte), se adaptou ao país.

Não dá para culpar o "japonglês" pelo Brasil não ter se classificado para Atenas. Mas é complicado o dialeto, vindo do inglês dos EUA (berço da modalidade) e que, via Japão (uma das potências do esporte), se adaptou ao país.

Para piorar, no Brasil o "japonglês" dos pioneiros nipônicos foi misturado com o português, ajustando o "sotaque" para cada região. E com o advento da TV paga nos anos 90, o "japonglês aportuguesado" sofreu a influência direta do inglês.

De qualquer forma, o original bat (bastão) virou "bata", o runner (corredor) virou "lana", e o pitcher (lançador) se transformou em "pitcha". "Tem gente que vai para a aula de inglês e começa a entender que 'sado' vem de 'third', e que os termos que ele usa no beisebol na verdade são um inglês mal-falado", afirma Carlos Sugimoto, diretor-técnico da CBBS (Confederação Brasileira de Beisebol e Softbol).

"Esse vocabulário vem de muito tempo", diz o presidente da CBBS, Jorge Otsuka. "O beisebol veio para o Brasil no início do século, já enraizado nos hábitos do imigrante japonês", explica.

Em uma época onde escolas de inglês não eram tão comuns como hoje em dia, mais do que normal que os termos fossem lentamente transformados em japonês, assim como, em português, football virou futebol, e back virou beque. Apesar da primeira partida oficial só ter sido registrada em 1919, o beisebol chegou no Brasil em 1908, trazido pelos 781 japoneses que imigraram no navio Kasatu Maru. O esporte "ianque" tinha sido levado para o Japão em 1873 pelo professor universitário Horace Wilson.

Desde então, o beisebol cresceu e se tornou o passatempo predileto dos japoneses. Assim como as capelas dos jesuítas nos séculos 16 a 18 apontavam a presença branca na terra indígena, o "diamante" do campo de beisebol era a marca registrada da presença de uma colônia japonesa nas cidades do interior de São Paulo, do norte do Paraná e no sul do Mato Grosso (hoje Mato Grosso do Sul). As linhas de trem da Sorocabana, da Mogiana e da Noroeste do Brasil espalharam os primeiros campos e clubes do país.

"É um esporte que exige muita estratégia e raciocínio", afirma Otsuka. Apesar de ter também o lado físico, o beisebol é como o go, jogo de tabuleiro que seria o "xadrez oriental": cada situação tem sua regra e exige uma estratégia diferente. A necessidade de respeito estrito às normas e o equilíbrio entre esforço coletivo e heroísmo individual se encaixam no espírito nipônico tradicional, de obediência e dedicação, derivado da filosofia do samurai.

Mas nem só de descendentes de japoneses vive o beisebol no Brasil. Antes dominado por meninos e meninas de olhos puxados, o esporte está mais miscigenado. "Hoje, cerca de 30% das pessoas que jogam são não-orientais", afirma Sugimoto. "Há alguns anos, se você visse mais de um jogador 'brasileiro' em um time, você estranhava". Entre as crianças, a difusão já é maior: de acordo com a CBBS, mais da metade dos jogadores vem de famílias não-orientais. "Essa mistura é muito bem-vida. Quanto mais gente jogar, melhor", afirma Otsuka.

Para Sugimoto, a genética também é vantagem nesta nova fase do beisebol brasileiro. "A complexão física dos descendentes de negros e europeus muda a dinâmica do jogo. Isso é bom, chegaremos mais perto dos craques dos EUA e do Caribe", acredita.

Autor: Leopoldo Godoy

Texto extraído do site: https://esporte.uol.com.br/olimpiadas/ultimas/2004/07/21/ult2250u4.jhtm

 

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